Os bastidores da política brasileira nunca foram tão visíveis — e controversos. Documentos recentes revelam que o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Partido Progressistas (PP) realizou oito viagens em 2025 utilizando uma aeronave particular pertencente a Roberto Carlos Castagnaro, advogado e sócio da JBS Terminais. A informação, obtida pela Folha de S.Paulo e corroborada por reportagens da Revista Piauí e do portal G1, expõe uma rede de deslocamentos que mistura compromissos oficiais com benefícios privados, levantando sérias questões sobre ética parlamentar.
O avião em questão é um Embraer 500, com prefixo PR-VEL, registrado na empresa Aerovista, sediada em Santa Catarina. Registros da junta comercial mostram que a única acionista da Aerovista é a RCC Administração Patrimonial, de propriedade exclusiva de Castagnaro. Curiosamente, a estrutura corporativa foi montada rapidamente: a Aerovista foi criada em 19 de agosto de 2024, e apenas três meses depois, em 25 de novembro do mesmo ano, a RCC comprou o jato por R$ 12,5 milhões da Fraction 033, transferindo-o imediatamente para a subsidiária.
Uma rota repleta de aliados políticos
Não foi apenas Ciro Nogueira quem aproveitou os assentos vazios. Os registros do terminal executivo de Brasília indicam que diversos outros parlamentares pegaram carona nesses voos. O deputado federal Julio Arcoverde (PP-PI), aliado próximo do senador piauiense, aparece como passageiro frequente, tendo viajado quatro vezes ao lado de Nogueira em 2025.
- Julio Arcoverde (PP-PI): 4 voos;
- Dudu da Fonte (PP-PE): 1 voo;
- Lula da Fonte (PP-PE): 1 voo;
- Atila Lira (PP-PI): 1 voo;
- Tereza Cristina (PP-MS): 1 voo;
- Antonio Rueda (União Brasil): 1 voo.
A assessoria de imprensa de Castagnaro confirmou que emprestou a aeronave ao senador, mas silenciou-se quanto aos termos financeiros ou contraprestações envolvidas. Vale lembrar que Castagnaro adquiriu 15% da operação de terminais marítimos da JBS, empresa controlada pela família Batista através da J&F Investimentos, consolidando sua posição no setor agroindustrial brasileiro.
Múltiplos empresários, múltiplas investigações
O caso do jato de Castagnaro não é isolado. Ao longo de 2025, Ciro Nogueira utilizou aeronaves de diversos empresários com interesses diretos ou indiretos no Congresso Nacional. Em Mônaco, por exemplo, o senador viajou em um jato pertencente a Fernando Oliveira Lima, proprietário da One Internet Group, uma empresa do setor de apostas online que estava sob investigação da CPI das Bets — comissão da qual o próprio Nogueira era membro ativo.
Em março de 2026, novas revelações surgiram quando o portal G1 apontou que Nogueira usou um helicóptero avaliado em R$ 16,4 milhões, de propriedade do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Acompanhado por Antonio Rueda, presidente do União Brasil, o senador fez três viagens entre o kartódromo Ayrton Senna e o aeroporto de Congonhas, durante o fim de semana do Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1.
Inquérito da Polícia Federal e STF
A situação se tornou ainda mais delicada com a abertura de um inquérito pela Polícia Federal (PF) para apurar suspeitas de descaminho ou contrabando em um voo realizado em abril de 2025. A aeronave saiu de Saint Martin, um conhecido paraíso fiscal no Caribe, e pousou na noite do dia 20 de abril no aeroporto de Catarina, em São Roque (SP).
A bordo estavam quatro parlamentares:
- Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados;
- Ciro Nogueira (PP-PI);
- Doutor Luizinho (PP-RJ);
- Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
Fernando Oliveira Lima, dono da aeronave e sócio da empresa de apostas investigada, também estava presente. O inquérito foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) devido à presença de autoridades com foro privilegiado. O timing é crucial: o voo ocorreu enquanto a CPI das Bets estava ativa, colocando Nogueira em uma posição de aparente conflito de interesses.
Ética vs. Legalidade
Embora o uso de aeronaves privadas por parlamentares não seja ilegal por si só, o Código de Ética do Senado Federal e a Resolução 42/14 exigem transparência. Parlamentares devem declarar benefícios recebidos de terceiros e evitar situações que configurem ou aparentem conflito entre interesse público e privado. Até o fechamento desta reportagem, Ciro Nogueira não havia se manifestado sobre os oito voos na aeronave de Castagnaro, nem apresentado esclarecimentos sobre eventuais contraprestações ou formalizações junto aos órgãos de controle do Senado.
Fernando Oliveira Lima, Hugo Motta, Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões também não comentaram sobre o voo investigado pela PF. O padrão observado sugere uma dinâmica conhecida em Brasília: deslocamentos que mesclam compromissos políticos e interesses privados, em circuitos que incluem eventos de alto padrão e articulações regionais.
Perguntas Frequentes
É ilegal um senador viajar em avião particular de empresário?
Não é ilegal por si só, mas o Código de Ética do Senado exige que parlamentares declarem benefícios recebidos de terceiros. Falhar nessa declaração pode configurar infração ética, mesmo que não haja crime penal direto.
Quem é Roberto Carlos Castagnaro?
Castagnaro é advogado e sócio da JBS Terminais, após adquirir 15% da operação de terminais marítimos da JBS. Ele possui a empresa Aerovista, dona do Embraer 500 utilizado por Ciro Nogueira em oito voos em 2025.
O que está sendo investigado pela Polícia Federal?
A PF investiga suspeitas de descaminho ou contrabando em um voo que saiu de Saint Martin e pousou em São Roque (SP) em abril de 2025. Havia quatro parlamentares a bordo, incluindo Ciro Nogueira e Hugo Motta. O caso foi enviado ao STF.
Por que a CPI das Bets é relevante nesse contexto?
Ciro Nogueira era membro da CPI das Bets quando viajou em um jato de Fernando Oliveira Lima, dono de uma empresa de apostas online investigada pela própria comissão. Isso levanta questões sobre conflito de interesses e imparcialidade.
Outros parlamentares também viajaram nessas aeronaves?
Sim. Além de Ciro Nogueira, deputados como Julio Arcoverde, Dudu da Fonte, Lula da Fonte, Atila Lira, Tereza Cristina e Antonio Rueda foram registrados como passageiros nos voos da aeronave de Castagnaro ou em outras viagens similares.