J&F e JBS pagam R$ 11,5 milhões a escritório de coworking em Goiânia abr 29, 2026

A movimentação financeira parece saída de um roteiro de suspense jurídico. A JBS e a J&F, gigantes do agronegócio controladas pelos irmãos Batista, transferiram a impressionante soma de R$ 11,5 milhões em dezembro de 2023 para um pequeno escritório de advocacia em Goiânia. O detalhe que acendeu o alerta vermelho? O escritório, liderado por Maísa Marciano, operava em uma sala compartilhada — o famoso coworking — e tinha um faturamento mensal médio de apenas R$ 9 mil. A operação, revelada por documentos do COAF, levanta questionamentos profundos sobre a natureza desses pagamentos e quem realmente se beneficiou do dinheiro.

Aqui está o ponto central da história: o dinheiro não parou na conta da advogada. Em um movimento quase instantâneo, parte desses recursos foi drenada para outras mãos. No dia 18 de dezembro de 2023, a mesma data em que a J&F injetou R$ 3,5 milhões no escritório, Maísa Marciano repassou exatamente esse valor para Paulo Humberto Barbosa, empresário e dono da PHB Holding. Essa triangulação financeira é o que torna o caso particularmente suspeito para os órgãos de controle.

O timing suspeito e a conexão com o STF

Para entender por que esses milhões mudando de mãos são tão problemáticos, precisamos olhar para o calendário. Os pagamentos de R$ 11,5 milhões foram finalizados apenas dois dias antes de um evento crucial no Judiciário. O Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), assinou a suspensão ou anulação de uma multa pesadíssima: R$ 3 bilhões. Esse valor era fruto de um acordo de leniência firmado pelas empresas no âmbito da Operação Lava-Jato, onde admitiram subornos e crimes.

Mas onde entra o empresário Paulo Humberto Barbosa nessa história? O elo parece ser o mercado imobiliário de luxo. Em fevereiro de 2025, Barbosa adquiriu a participação do próprio Ministro Toffoli no resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. Mais tarde, em julho de 2025, ele também comprou a parte de Alberto Leite, outro ex-sócio do empreendimento. O cenário fica ainda mais nebuloso quando se considera que, em 2025, a J&F injetou mais R$ 25,9 milhões na PHB Holding de Barbosa.

A engrenagem dos repasses financeiros

Se analisarmos a cronologia dos fatos, a sequência de eventos é quase matemática. Primeiro, o dinheiro sai das empresas dos irmãos Batista para um escritório com estrutura mínima; depois, migra para a holding de um empresário; e, finalmente, esse empresário compra ativos de um ministro da Suprema Corte que, coincidentemente, anula uma multa bilionária para as empresas originárias do dinheiro.

  • 15 de dezembro de 2023: JBS transfere R$ 8 milhões para Maísa Marciano.
  • 18 de dezembro de 2023: J&F transfere R$ 3,5 milhões para a advogada.
  • 18 de dezembro de 2023: Maísa Marciano repassa R$ 3,5 milhões para Paulo Humberto Barbosa.
  • Dois dias depois: Ministro Toffoli suspende multa de R$ 3 bilhões da JBS/J&F.
  • Fevereiro de 2025: Barbosa compra cotas de Toffoli no resort Tayayá.

O contraste é gritante. De um lado, um escritório que fatura R$ 9 mil por mês — o que mal cobriria custos operacionais básicos de um profissional liberal em Goiânia — recebendo milhões. Do outro, movimentações que envolvem a cúpula do Judiciário e holdings de investimento. (É difícil imaginar que tal volume de honorários fosse compatível com a estrutura de um coworking).

As justificativas e a visão do COAF

As justificativas e a visão do COAF

Questionadas sobre a operação, as empresas do grupo mantiveram a versão oficial. Em nota, afirmaram que os pagamentos foram destinados a "serviços jurídicos prestados e comprovados". No entanto, a empresa se isentou de qualquer responsabilidade sobre o que a advogada fez com o dinheiro após o recebimento, alegando não ter informações sobre transferências para terceiros.

Já para o COAF, a conta não fecha. O órgão de inteligência financeira identificou as transações como atípicas justamente pela desproporção. Quando uma conta que costuma movimentar quantias modestas recebe subitamente milhões de reais, isso dispara um alerta automático de possível lavagem de dinheiro ou ocultação de patrimônio. A discrepância entre a capacidade operacional do escritório e o valor dos honorários é o "estopim" da investigação.

Impactos e o que esperar a seguir

Impactos e o que esperar a seguir

Esse caso não é apenas sobre números, mas sobre a percepção de impunidade e o uso de "intermediários" para transacionar valores. Se ficar comprovado que a PHB Holding serviu como ponte para beneficiar agentes públicos, estaremos diante de um novo capítulo escandaloso de corrupção envolvendo as maiores empresas de carne do mundo.

O próximo passo agora depende de como as autoridades judiciais vão interpretar a triangulação. A pergunta que fica no ar é: qual serviço jurídico poderia justificar R$ 11,5 milhões pagos a um escritório de coworking? A resposta para isso poderá determinar o futuro jurídico dos envolvidos e a validade da anulação daquela multa de R$ 3 bilhões.

Perguntas Frequentes

Por que os repasses para a advogada Maísa Marciano foram considerados suspeitos?

As transferências foram consideradas atípicas pelo COAF devido à enorme discrepância entre o faturamento mensal do escritório, que era de apenas R$ 9 mil, e a soma recebida da JBS e J&F, que totalizou R$ 11,5 milhões em um único mês. Além disso, o escritório operava em um espaço de coworking, o que não condiz com a estrutura necessária para serviços de tal magnitude financeira.

Qual a relação entre Paulo Humberto Barbosa e o Ministro Dias Toffoli?

Paulo Humberto Barbosa, proprietário da PHB Holding, adquiriu em fevereiro de 2025 a participação do Ministro Dias Toffoli no resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. Essa transação ocorreu após Barbosa ter recebido repasses financeiros originados da J&F e JBS, via escritório de advocacia.

O que foi a multa de R$ 3 bilhões mencionada na reportagem?

A multa era parte de um acordo de leniência firmado pela JBS e J&F com o Ministério Público Federal durante a Operação Lava-Jato. As empresas confessaram crimes de suborno, mas a multa foi suspensa ou anulada pelo Ministro Dias Toffoli apenas dois dias após as transferências milionárias para a advogada Maísa Marciano.

Qual a defesa das empresas J&F e JBS sobre esses pagamentos?

As empresas alegam que os R$ 11,5 milhões foram pagamentos legítimos por serviços jurídicos devidamente prestados e comprovados. Elas afirmam ainda que não possuem controle ou informações sobre como seus fornecedores, no caso o escritório de advocacia, movimentam seus recursos para outras pessoas ou empresas.

Graziela Barbosa

Graziela Barbosa

Sou jornalista especializada em notícias e adoro escrever sobre os acontecimentos diários do Brasil. Sempre busco trazer um olhar crítico e informativo, prezando pela autenticidade e clareza. Meu trabalho é movido pela paixão em informar e pela necessidade de fomentar o debate público.

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